keep walking…

Na astrologia védica, o zodíaco percorre o corpo da cabeça aos pés. Áries está associado à cabeça; Peixes, aos pés. É um percurso que vai do nascimento à morte.

No meu mapa astral, Saturno é muito influente e, neste período da minha vida, tenho sentido sua presença de maneira especialmente forte. No céu, neste momento, Saturno transita por Peixes.

E eu tenho caminhado.

Quase tomei um susto ao ver a quantidade de passos que dei nestes últimos meses, registrados naquele aplicativo do telefone. E olha que nem estão ali calculados os passos que dei sem estar com o telefone contando.

O interesse por mapas sempre me acompanhou, e foi muito também nessa perspectiva do caminhar. Há seguramente alguma coisa dos meus ancestrais nisso: gente que andou muito a pé ou a cavalo pelo interior de Minas Gerais; e também uma ascendência libanesa que atravessou mares e oceanos para se estabelecer nas terras brasilis. De um lado ou de outro, de uma forma ou de outra, sinto a herança da mobilidade nas minhas veias.

Desde que vendi meu carro, em 2006 — uau, há vinte anos! — adotei a bicicleta e a caminhada como meus modais preferidos. Não me considero ciclo-ativista nem atleta. Gosto simplesmente de me locomover assim.

Neste último mês, o Porto inaugurou algo inédito em Portugal: a gratuidade dos transportes públicos para todos os residentes na cidade. Para quem usa o transporte, uma coisa já ficou evidente: quando o custo deixa de determinar cada deslocamento, outras possibilidades aparecem.

Posso pegar um ônibus sem precisar pensar se tenho o bilhete certo. Posso descer algumas paragens antes. Caminhar um trecho, pegar o metro, o elétrico, continuar de bicicleta. Posso experimentar uma errância.

A gratuidade abre espaço para uma vivência menos calculada da cidade.

Caminhar oferece outra experiência. Você para onde quer, entra, desvia, descobre.

A cidade muda de escala. O que antes era paisagem passa a ser detalhe: uma porta, uma árvore, uma conversa, uma calçada, uma fachada, um pedaço de céu, uma planta que nasce do asfalto. 

Mais do que passar pela cidade, você está nela. Já não é apenas espectador, é participante.

Há cerca de treze anos, quando fazia meu doutorado em São Paulo, eu já pensava sobre mobilidade, espaço público e sobre a maneira como ocupamos, ou não, a cidade. 

Um marco foram as manifestações de 2013. As pessoas queriam ir, vir e, sobretudo, estar na cidade. Participar da vida pública. E hoje sabemos: tanto para o bem quanto para o mal. Viva a democracia — ou o que fazemos quando a participação pública abre caminhos que não podemos controlar?

Naquele momento, milhares de pessoas caminharam juntas por quilômetros numa cidade difícil de caminhar. Em uma das manifestações, chegaram até uma ponte construída apenas para os automóveis e que, naquele dia, foi ocupada por milhares de pessoas a pé. Lembro de uma frase dita por alguém: aquele era “um chão que nunca tinha visto um pé antes”.

Treze anos depois, essa imagem ainda me acompanha. 

Naquela pesquisa, eu escrevia sobre mobilidade, invisibilidade, reconhecimento e direito à cidade. Hoje continuo interessada em algumas dessas questões, mas olhando para elas de outro lugar. 

Uma cidade não é apenas aquilo que vemos quando passamos por ela. É também aquilo que conseguimos acessar, atravessar, ocupar e reconhecer como nosso.

Por isso, caminhar também pode ser uma pequena prática de pertencimento. 

Colocar os pés no chão é uma forma muito concreta de estar em relação com o lugar.

Penso nisso enquanto continuo andando. 

Caminhar nos obriga a lidar com o tempo de outra maneira. Há subidas, descidas, pausas, desvios, cansaço. Há lugares onde precisamos diminuir ou apressar o passo, há outros que precisamos ceder espaço.

Saturno em Peixes. O planeta do tempo encontra os nossos pés. O corpo atravessando o caminho.

E, no meio disso tudo, continuar caminhando. 

Não necessariamente para chegar mais rápido.

Mas para estar onde estamos; para perceber o chão. Para entender que acelerar é apenas caminhar mais rápido em direção à morte. Para redescobrir o que aparece quando diminuímos o passo. E também o que contingencialmente temos que deixar para trás.

Keep walking…

fotografia de Vitor Costa, Portugal, 2026.

ojaskara.org

Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

https://www.ojaskara.org/
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