novos tempos, brilham estrelas

O que fazemos com a energia que nos reuniu?

Desde o fim das eleições presidenciais no Brasil, essa pergunta tem ecoado. A energia mobilizada foi tanta que ultrapassou fronteiras e reacendeu a chama cívica e progressista em outros países. E a vitória foi uma reviravolta crucial para evitarmos o buraco para o qual estávamos sendo empurrados.

Durante a campanha, me peguei pensando no fenômeno do “Exército do Lula”, que reuniu mais de 10 milhões de pessoas num canal de WhatsApp para vencer as eleições. Paradoxalmente, um campo que rejeita o autoritarismo recorreu a códigos militares. Paródia, para uns; desconforto, para outros. Talvez as duas coisas. 

Essa estratégia funcionou, e muita gente recuperou o sentimento de comunidade e o desejo de fazer parte de algo maior do que o próprio interesse. Mas códigos de guerra servem à urgência da batalha. Para o que vem depois, precisamos de outra gramática: a do cuidado.

A estrela do PT tornou-se constelação, e foi a participação popular que a fez. Uma constelação é um desenho que percebemos da Terra e que só se forma quando traçamos relações entre pontos. Os pontos não formam figura por estarem lado a lado: é a relação entre eles que permite reconhecê-la. A figura não está dada.

Vi boa parte desse movimento da margem: quase não publico nas redes, mas nesta eleição me engajei como nunca trabalhando para o algoritmo, compartilhando, curtindo, seguindo. É impossível não reconhecer a força delas: foi lá que tantos pontos se encontraram, com humor, inteligência e imaginação, sobretudo pela voz de jovens influenciadores. Da margem, porém, também se enxerga outra coisa: algumas estrelas brilharam mais e ganharam nome de protagonistas, enquanto outras, igualmente necessárias, tiveram de intervir com o próprio corpo para abrir espaço e reivindicar escuta. Pessoas negras, indígenas, idosas e tantas outras.

O desafio agora é cuidar das relações: tecer uma rede que não dependa apenas de quem já tem mais voz ou poder de convocação, e em que as vozes possam participar mesmo quando divergem. Isso é menos épico do que uma campanha. É a conversa no trabalho que não foge do desacordo, a reunião de escola ou de bairro em que quem costuma calar tenha vez, a mesa de família em que se consegue discordar sem romper. É nesses espaços onde a vida acontece que a constelação se sustenta ou se apaga.

Às vezes me pergunto se a divisão mais profunda não está, para além de direita e esquerda, entre quem acredita que seu bem-estar pode existir separado do bem-estar dos outros e quem sabe que nossas vidas estão interligadas. Dependemos uns dos outros e do mundo vivo que partilhamos. Afirmar a vida é cuidar dos laços entre os viventes.

Talvez este seja um momento para olhar de outra perspectiva, de dentro, da margem ou até de cabeça para baixo: ver de novo os limites que pareciam inevitáveis e imaginar outras formas de viver e se relacionar, sem nos resignarmos às coisas como estão.

A luta eleitoral acabou, por ora. Agora é cuidar do desenho: fortalecer a rede, ampliar as vozes, apurar a escuta, compartilhar a responsabilidade. Que pertencer não seja só um sentimento da campanha: que seja algo que se pratique no trabalho, na escola, na mesa da família. A luta por uma vida mais digna e bem vivível para todos continua. Que venham os novos tempos e que brilhem mais estrelas.

fotografia de Fernanda Curi, Shanghai, 2026

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Ojaskara é um campo de práticas que articula saberes védicos e estratégias culturais para apoiar processos de pertencimento, cuidado e transformação.

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