oriente
O Oriente sempre exerceu um fascínio em mim. Talvez por isso, quando penso nele, me venha à cabeça a canção “Oriente”, de Gilberto Gil:
“Se oriente, rapaz… Pela constelação do Cruzeiro do Sul (…) Pela rotação da Terra em torno do Sol (…) Pela constatação de que a aranha vive do que tece.”
O primeiro Oriente que me fascinou foi o Japão, talvez pelo contato que meu pai tinha com japoneses quando eu era criança. Havia os presentes lindos e tecnológicos que ele ganhava, numa época em que quase tudo ainda era analógico, e o primeiro pequeno restaurante japonês de Belo Horizonte que frequentávamos. Foram os primeiros sinais de uma paixão por aquele outro lado do mundo, que foi se intensificando ao longo da vida.
Estudei japonês por cinco anos e, movida “pela curiosidade de ver onde o Sol se esconde”, me aventurei sozinha pelo Japão em 1999. Foi uma viagem que marcou um antes e um depois. Pude conhecer de perto a cultura que me fascinava desde criança. Lembro da sensação de estar sozinha e segura, sem medo, e de me locomover com facilidade pelas cidades e entre elas. Lembro de um povo respeitoso e, naquela época, bastante curioso diante de uma estrangeira que conseguia se comunicar em seu idioma. E lembro do paradoxo entre o tradicional e o tecnológico, do cheiro de madeira e bambu e da comida deliciosa em qualquer birosca ou barraquinha de rua.
Depois veio a Índia, com o conhecimento védico que decidi aprofundar: yoga, ayurveda e astrologia védica. Estive lá brevemente duas vezes. Em uma delas, fiquei em um ashram e experimentei a rotina da vida em comunidade: acordar cedo para meditar e praticar yoga, ajudar na cozinha, servir a primeira refeição e preparar a segunda.
Ao sair da tranquilidade do ashram e cair na rua, tudo mudava. O caos, o barulho, o trânsito tumultuado, onde pessoas, animais e veículos de todo tipo se misturavam e disputavam espaço. Mas, mesmo no meio daquele caos, havia sempre alguma forma de paz: num olhar, num sorriso, numa situação inesperada. A Índia me ensinou que é possível encontrar silêncio no tumulto, paz no caos.
Outros países do Sudeste Asiático que tive a oportunidade de conhecer — Tailândia, Vietnã, Camboja e Laos — também me trouxeram, cada qual à sua maneira, ensinamentos do Leste. Sempre nessa toada: uma mistura de sabores, texturas, cheiros, sons, movimento, surpresa, ritual, respeito, paz e caos. Tudo fluindo de forma imperfeita e, ainda assim, perfeitamente bem.
Recentemente, tive o grande prazer de conhecer a China, um destino que talvez eu não tivesse escolhido por puro preconceito. Fui surpreendida por um país onde tanta coisa funciona e que tem muito a ensinar ao nosso velho e decadente Ocidente, que parece querer andar para trás. Em muitos aspectos, a China está lá na frente — resultado de anos de construção. A imagem da aranha que vive do que tece me faz pensar nesse trabalho paciente de construir o futuro.
É um lugar estimulante, onde a surpresa aparece várias vezes ao dia: nas cidades verdes, no cuidado com o espaço público, na energia renovável, nos transportes e nos serviços que funcionam tão bem; na comida deliciosa e barata, nas pessoas gentis e na tecnologia que, com tradutores e aplicativos, aproxima quem não fala a língua. Banheiros, bicicletas e power banks compartilhados estão por toda parte. Há espaço para circular, respirar e estar. E há uma sensação de segurança marcante: poder caminhar, explorar e se deslocar com tranquilidade.
Também me chamou a atenção a confiança no trabalho, na capacidade de fazer, construir e desenvolver a própria economia. Vi um país voltado para o futuro e para a melhoria das condições de vida de sua população. Isso me fez pensar em modelos de desenvolvimento que investem em infraestrutura, inovação e bem-estar coletivo, em vez de medir sua força apenas pela capacidade de dominar outros povos. Encontrei abertura para a troca e para o contato com pessoas de fora — uma impressão que ampliou minha curiosidade e me fez rever ideias que eu carregava comigo.
Quando o básico está garantido, é possível ir além. Fiquei completamente apaixonada por um país que, durante muito tempo, associei à falta de liberdade, à vigilância e ao controle. Talvez o maior aprendizado que a China me trouxe tenha sido justamente este: a liberdade também exige disciplina e a capacidade de reconhecer os limites.
Em tempos de eleições no Brasil, quando ideias de esquerda são tratadas como ameaça ou como coisa do passado, enquanto ideias de extrema direita alimentam o privilégio, a desigualdade e a intolerância, olhar para outras partes do mundo pode nos ajudar a imaginar futuros diferentes e a zelar pelo bem comum. Esse olhar não implica idealizar outros países nem ignorar suas contradições; permite escapar das respostas prontas e aprender com experiências que desafiam nossas certezas.
Viva o Oriente. Que possamos deixar de lado visões e distinções retrógradas e reconhecer que é possível viver tudo junto e misturado e que as diferenças podem conviver em harmonia. Fica o conselho de Gil: orientar-se pela curiosidade, lembrar que tudo merece consideração e que tudo depende de determinação. “Se oriente, rapaz…”
fotografia de Vitor Costa, Shanghai, 2026