chama que transforma
Enquanto o Brasil se aquece e ferve rumo ao Carnaval, com dias de verão incendiando os corações, os meses de inverno no hemisfério norte se estendem em um silêncio glacial e melancólico. Para quem viveu a magia dos verões intensos do hemisfério sul, a ausência prolongada do Sol, do calor e da luz desperta uma profunda saudade, uma lembrança que traz uma nostalgia e um clamor pela chama que transforma.
É intrigante ver as redes sociais com gente num canto e no outro do hemisfério. Enquanto uns se esbaldam suados em biquinis nos pré-carnavais da vida, outros mostram paisagens gélidas onde a única cor é a do cachecol. Ao mesmo tempo, em pleno calor, tudo se inunda com as chuvas torrenciais que, mesmo onde prevalece o frio, não se contêm.
O desequilíbrio entre os extremos está dado: com verões e invernos cada vez mais intensos, é preciso sabedoria para manter a saúde. De acordo com o Ayurveda, o primeiro nível de desequilíbrio é orgânico e, portanto, relacionado a cinco fatores essenciais: os elementos, os doshas, a alimentação, o estilo de vida e o ambiente em que vivemos. É essencial voltarmos aos fundamentos frente a esse ambiente extremado – um calor ou frio sem fim – em que já não percebemos as passagens sutis entre as estações. Vamos por partes:
Os Elementos
Os cinco elementos – terra, água, fogo, ar e éter – não são meras substâncias, mas os pilares sagrados que estruturam o universo e o nosso próprio ser. Conhecidos como Pancha Mahabhutas, eles se entrelaçam em proporções únicas e moldam tanto o mundo material quanto o sutil, ditando os ritmos da natureza e do cosmos. Compreender esses elementos é desvendar os mistérios que regem a dança dos astros na nossa existência.
Cada elemento revela uma qualidade essencial da realidade:
Terra (Prithivi): a matéria que nos sustenta, a solidez que nos dá forma e segurança.
Água (Jala): a fluidez que conecta, nutre e adapta – assim como as emoções que nos movem.
Fogo (Agni): a luz que ilumina, a energia que transforma e o impulso que inicia novos ciclos.
Ar (Vayu): o sopro vital que move ideias, impulsiona sonhos e comunica a essência do ser.
Éter (Akasha): o espaço infinito onde tudo se conecta.
Os Doshas
A sistematização dos cinco elementos em três biotipos ou doshas – Vata, Pitta e Kapha – é a faceta mais conhecida do Ayurveda. Cada dosha é formado por uma combinação dos elementos:
Vata: ar + éter.
Kapha: terra + água.
Pitta: fogo + água.
Pitta, assim como o Sol com sua energia flamejante, rege a digestão e o metabolismo. Kapha é como a Lua, suave e acolhedora, simbolizando a sustentação. Vata, semelhante ao vento, é sutil e impetuoso, governando o movimento e a criatividade. Cada ser é uma mistura única desses doshas, e suas proporções definem nossa constituição e saúde.
Atributos dos doshas:
Vata: seco, leve, frio, áspero, sutil, móvel ou agitado. Quando equilibrado, promove criatividade e flexibilidade; em desequilíbrio, pode gerar medo, ansiedade e confusão mental.
Pitta: possui características oleosas, penetrantes, quentes e leves, com odor forte. Sua energia de transformação, em equilíbrio, promove compreensão e inteligência; em desequilíbrio, pode resultar em raiva, ódio, ciúmes e distúrbios inflamatórios.
Kapha: úmido, oleoso, frio, pesado, lento, pegajoso, suave e firme. Em equilíbrio, gera amor, calma e perdão; em desequilíbrio, propicia apego, cobiça, possessividade e letargia.
Alimentação e Estilo de Vida
Se somos feitos de elementos e organizados em doshas, é essencial conhecer nossa constituição primária para permanecermos em equilíbrio. A posição dos planetas no mapa natal pode indicar essa predisposição, mas a auto-observação também é fundamental para entender qual elemento predomina ou está em falta em nosso corpo.
A máxima do Ayurveda “semelhante aumenta semelhante” nos alerta: se o corpo está inflamado, por exemplo, ingerir alimentos quentes e estimulantes como pimenta ou café não ajudará; se nos sentimos desenergizados, consumir alimentos pesados e doces pode agravar o quadro. Para alimentar-se bem, é preciso compreender o que nos faz bem e, igualmente, quando é o momento certo para comer. Uma fruta, por exemplo, pode ser benéfica durante o dia, mas não necessariamente antes de dormir. Nem toda fruta é ideal para todas as estações – a melancia, em clima frio e úmido, pode aumentar Vata, enquanto em dias quentes ela é uma benção, proporcionando hidratação necessária.
Acima de tudo, é essencial cuidar do fogo digestivo, o Agni. Ele não pode ser apagado – o que leva à constipação – nem queimar os alimentos, causando diarreia. Para mantê-lo em equilíbrio, é fundamental facilitar seu trabalho no processo de limpeza, nutrição e eliminação, evitando, sempre que possível, alimentos de difícil digestão, como carnes pesadas, queijos e refeições excessivamente elaboradas.
Ambiente e o Fogo Interno
Podemos controlar nossa alimentação e nosso estilo de vida, mas o ambiente externo, com suas intempéries, está fora do nosso alcance. Em tempos de extremos, seja de calor ou de frio, a postura deve ser reflexiva e cuidadosa, estimulando-nos a reativar nossa própria chama interior.
Sabe aquela velha desculpa de “não tenho tempo, dinheiro ou vontade de fazer exercício físico”? É hora de repensar! É fundamental observar o metabolismo e cuidar da digestão – processos intimamente ligados à energia do fogo – e manter uma prática regular de atividade física, com intensidade ajustada conforme o calor ou sua ausência, para evitar que a energia se torne estagnada e acabe por explodir, ou implodir.
Em tempos extremos – seja pela ausência ou pelo excesso de calor – o verdadeiro convite é cultivar essa energia de dentro para fora. O desafio está em aprender a cuidar da própria chama — pois é ela que transforma — harmonizando corpo e mente para alcançar clareza, propósito e determinação.
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fotografia de Fernanda Curi, Lessa, Portugal, 2020