pau que nasce torto…

Diz o ditado em português: “Pau que nasce torto nunca se endireita.” Em inglês, uma expressão equivalente seria A leopard can’t change its spots (Um leopardo não pode mudar suas manchas) ou You can’t teach an old dog new tricks (Você não pode ensinar novos truques a um cachorro velho). Repetidas ao longo de gerações, expressões como essas tornam-se crenças coletivas, reforçando a ideia de que mudar é impossível — que somos prisioneiros de nossos hábitos, crenças e padrões. Mas como aceitar algo tão limitador, quando a própria vida é uma jornada que nos convida a crescer, transformar e lidar com desafios e bênçãos?

Será que essa crença não reflete, na verdade, a forma como olhamos para nós mesmos e para os outros? Muitas vezes nos vemos presos em padrões inconscientes, incapazes de enxergar além de nossas histórias repetitivas. Mas, afinal, o que significa estar "torto"? Quem define o que é reto ou curvo, certo ou errado?

Por outro lado, há aspectos da existência que parecem imutáveis. Algumas condições, como limitações físicas ou desafios que escapam ao nosso controle, pedem mais do que resistência: pedem aceitação. E aceitar não é se resignar; é um ato de sabedoria. Lembro-me de uma pessoa com paralisia cerebral usando uma camiseta com os dizeres: “Eu sou torto, e tu?” Essa frase me fez refletir: o que significa, afinal, ser torto? Por que há essa obsessão em “endireitar”? Talvez o problema esteja na própria definição de “reto”, na ideia de que existe um modelo único de ser ou de viver.

É nesse contexto que me volto ao Sol, uma metáfora poderosa para o autoconhecimento. Na tradição védica, o Sol é o símbolo maior do atma, o sujeito que sou, nossa alma. Ele representa a consciência plena, brilhante e imutável. O Sol, como parte do cosmos, está em movimento — orbitando o centro da galáxia — mas sua luz constante é uma lembrança de nossa essência. Enquanto giramos ao redor dele na Terra, ele permanece como uma presença central, uma referência estável no fluxo do tempo.

Curiosamente, na astrologia védica, o Sol representa tanto nossa alma (Atma) quanto o ego (Ahankara). O Atma é a consciência que se manifesta como uma individualidade única em cada um de nós. Já o ego é como uma interface: uma estrutura que nos ajuda a interagir com o mundo, mas que também pode nos aprisionar em uma visão limitada de quem somos. Essa visão, baseada em desejos, aversões e identificações, é o que frequentemente nos faz sentir separados do todo.

O Yoga nos ensina sobre anahamkara, ou “não-egoísmo”: a capacidade de reconhecer o ego pelo que ele realmente é — uma ferramenta útil, mas que não define nossa essência. Quando cultivamos essa perspectiva, deixamos de nos identificar com uma lista de gostos e aversões e começamos a nos perceber como a paz que observa esses movimentos.

Essa distinção entre o Atma e o ego é fundamental para transcender a ignorância existencial — chamada de avidyā. É essa ignorância que nos faz acreditar na ilusão de separação e nos aprisiona em ciclos de prazer e dor, reforçando padrões repetitivos. Mas quando trazemos luz a esses padrões, quebramos as correntes que nos prendem, abrindo espaço para o crescimento.

Sim, somos seres de hábitos. Muitas vezes reagimos automaticamente a estímulos, repetindo comportamentos que nem sequer percebemos. No entanto, a possibilidade de mudança está sempre presente. Trazer consciência é como abrir uma janela em um quarto escuro: os padrões antigos perdem a força e novas perspectivas se tornam possíveis.

Essa consciência é completa, plena e livre de limitações. Já somos a plenitude que buscamos. Mas, como o Sol encoberto por nuvens ou aparentemente escondido no horizonte, essa plenitude parece ir e vir. Isso, no entanto, é apenas uma ilusão. A consciência plena — nossa verdadeira natureza — permanece inalterada, independentemente dos altos e baixos da mente.

O Sol é, assim, uma metáfora central para a jornada humana. Ele é o centro estável ao redor do qual tudo se move. Eu sou essa consciência que observa os ciclos da vida, os desafios e as alegrias. Minha tarefa é transitar entre eles com sabedoria, reconhecendo que o brilho que busco já está em mim.

O autoconhecimento nos convida a nutrir aquilo que é bom, a cultivar energia espiritual e a encontrar beleza em todas as experiências, sejam elas retos caminhos ou curvas inesperadas. Quem disse que o pau torto precisa se endireitar? Talvez seja justamente na curva, na imperfeição, que esteja a verdadeira potência. Assim como o pinheiro retorcido resiste ao vento onde um tronco reto tombaria, a vida é mais rica e resiliente em suas nuances e desvios.

No fim, não é o formato do tronco que importa, mas a luz que o ilumina — aquela que sempre esteve lá, brilhando por dentro. Então, o que inspira sua alma? Como você pode encontrar beleza e crescimento em cada experiência?

O Sol no mapa natal ilumina essas perguntas. Ele nos mostra que a vida não é sobre corrigir o que nasceu torto, mas sobre reconhecer a força e a singularidade de cada trajetória. Porque, no fundo, somos como o Sol: brilhamos plenamente, mesmo quando as nuvens tentam esconder nossa luz.

fotografia de Fernanda Curi, Piódão, Portugal, 2024

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