entre fim e começo

O fim do ano chega e, com ele, o convite do nosso calendário gregoriano para revisões e resoluções. É uma época em que, entre balanços e celebrações, revisitamos o que fizemos e traçamos planos para o futuro.

Mas também é um período que costuma trazer sentimentos mistos – cansaço, ansiedade, frustração, incertezas e, muitas vezes, aquela incômoda sensação de ter feito demais, ou de não ter feito o suficiente, e ainda, de não ter conduzido as coisas como realmente gostaríamos. Nessa revisão, até mesmo as conquistas acabam sendo reduzidas a uma lista de pendências.

Apesar das alegrias individuais que podemos ter vivido, no plano coletivo, nossa humanidade, marcada por tantos conflitos e misérias desnecessárias, muitas vezes deixa o saldo emocional inclinado ao negativo. Junto a isso, surge uma sensação de não entender bem o seu papel no mundo ou de não se sentir parte de algo maior.

Nos últimos tempos, tenho refletido muito sobre o conceito de pertencimento, tanto nos projetos em que estou envolvida quanto nos atendimentos que realizo. Essa questão tem se mostrado cada vez mais central, seja na maneira como nos relacionamos com o mundo, seja na forma como nos conectamos conosco mesmos. A que pertencemos, afinal? Pertencer por quê e para quê?

Pertencer é muito mais do que ocupar um espaço ou desempenhar um papel. É algo inato no ser humano, sentir que fazemos parte de algo maior, que somos reconhecidos e que temos algo único a oferecer. Também é perceber como nossas histórias individuais se conectam a histórias coletivas, ajudando-nos a entender o que nos une e o que nos diferencia.

No limite, só a pertença interessa entre o começo e o fim.

Essas reflexões nos ajudam a perceber tanto as camadas sociais e culturais ao nosso redor quanto aquelas que compõem nossa própria essência. Somos múltiplos, e cada faceta de quem somos encontra sua expressão nos diferentes momentos da vida. Como revela o movimento dos planetas na astrologia, há períodos em que uma energia se destaca e assume o protagonismo, enquanto outras aguardam o momento certo para emergir, trazendo novos desafios, aprendizados e perspectivas. Reconhecer e acolher essa multiplicidade interna nos conecta com quem realmente somos e, ao mesmo tempo, nos fortalece para caminhar em harmonia com o fluxo natural da vida, abertos às transformações que ela nos apresenta.

Revisar o ano, portanto, não é apenas uma prática de organização ou avaliação. É um gesto de acolhimento, de reconhecimento do que foi vivido, mesmo que imperfeito, e de honrar os aprendizados que carregamos. Não se trata de buscar um balanço "positivo", mas de perceber o que nos fortaleceu, o que nos trouxe clareza e o que ainda precisa de cuidado e atenção.

Planejar o que está por vir segue o mesmo princípio: é um ato de pertencermos ao tempo que vivemos e, a partir disso, desenharmos caminhos para vivê-lo da melhor forma possível. Planejar não significa controlar cada detalhe, mas criar um norte, um ponto de referência que nos permita caminhar com intenção, sem perder a flexibilidade necessária para lidar com o inesperado. Sem um plano, podemos nos sentir à deriva; sem abertura, podemos nos tornar rígidos, apegados aos velhos padrões. O equilíbrio está em traçar um mapa que nos oriente, mas que também deixe espaço para mudanças e reinvenções.

E isso não precisa ser feito apenas no fim do ano, uma vez que planejar e revisar são movimentos contínuos. A astrologia védica nos ensina que há momentos propícios para essa prática ao longo do ciclo anual. A cada mês, o Sol muda de signo e essa mudança é um convite natural para revisar e reorganizar intenções. O domingo – Sunday –, associado ao Sol, é o dia ideal para alinhar os passos semanais e repensar objetivos de forma prática.

Neste fim de ano, reserve um momento para reavaliar ao que você pertence e ao que deseja continuar pertencendo. Pense no que construiu, nas conexões que criou, nos aprendizados que viveu e nas conquistas que merecem ser aprofundadas. E, ao planejar o próximo ciclo, permita-se criar não apenas metas, mas também pausas, respiros – momentos para revisitar os sonhos, redefinir caminhos e celebrar o percurso. 

Afinal, o que buscamos não é apenas encerrar etapas ou encontrar soluções definitivas, mas sim revelar caminhos que mantenham a vida em andamento – com norte, com intenção e com pertença.

Uma grande conquista de 2024 foi ter criado e nutrido este espaço, mês a mês, durante todo o ano. Ojaskara me faz pertencer. Obrigada por estar comigo nessa caminhada!

fotografia de Fernanda Curi, Rio de Janeiro, 2024.

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